sexta-feira, 16 de outubro de 2009

REPÓRTER DO SERTÃO

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segunda-feira, 6 de abril de 2009

FIM DE SEMANA À BEIRA MAR - MANHÃ
















Fotos: Kamille Costa


É sábado na Avenida Beira Mar de Fortaleza. Os termômetros registram 24 graus às sete horas da manhã. Enquanto espreito da janela do hotel o mar ainda sonolento, embaixo, vejo os carros desfilando suas marcas e motores em cores importadas - verde eu sou terrível, azul conquista suave, marrom choro engasgado, vermelho fruta da quarta estação, branco destino insólito, preto cardume de peixes... um New Beatle! cor de chumbo. Na esquina dispara um alarme estrangeiro, rompendo a suprema paz ao nascer de um novo dia. Guardadores se comunicam com gritos e assobios em mais uma manhã radiante de veículos. Nuvens se movimentam lentas como tartarugas em um céu desperto. Pelo calçadão, casais senis que terminaram a caminhada, retornam para casa com as sacolas com o leite e o pão do café da manhã, balançando para lá e para cá. Sentados em um banco no aterro de Iracema, dois amigos de canudo na boca trocam experiências após a corrida de sete quilômetros, foram juntos até o Mercado de Peixes e agora repõem as energias com a água geladinha do coco.

- Botou o freguês para correr, Reginaldo!

Reginaldo botou o freguês para correr com a sua voz delinqüente e o seu olhar marginal, embora seja culpado, Reginaldo, mas pelo voraz tratamento prestado ao freguês, que nem deu trela para o comércio ambulante, tão apressado estava em se desvencilhar do chato.

- No, no, no, thanks...

Agora cai uma chuva fina, incomodando senhoras precavidas que se protegem com sombrinhas. Sem se incomodar com a neblina, velhinhos estendem a perna, alongando, enquanto velhinhas caminham com as mãos esticadas. Coroas correm na areia fofa segurando os seios abastecidos, que balançam. Caminhões apinhados de coco fazem a distribuição do fruto que contém a água apreciada por toda orla. A força de cinco homens faz o trajeto do coco do veículo até a mão do freguês. E de mão em mão, a água do coco chega à boca do homem, através do canudinho, gelada pelo gelo que logo cedo foi picado e botado dentro do isopor para refrigerar.

- Ei, madame, cuidado com a cabeça...

Por todos os lados - corredores alongando nas esquinas, nos bancos de madeira e de cimento, nas pedras; ciclistas experientes de capacete e garrafas de água penduradas desviam a toda hora do pedestre; garotos personais treinam clientes que desenvolvem com extrema competência o exercício; motoristas estacionam os automóveis e guardam as chaves no bolso para se tornarem coopistas no calçadão; nadadores têm uma conversa séria com o mar antes de mergulhar nas águas mornas do Meireles. O verde do oceano e o azul do céu se misturam a luz da alvorada, formando uma incrível paisagem que poderia resultar numa tela abstrata se não fosse pela ave que adentra no cenário transformando o quadro num cartão postal. Surfistas bronzeados alongam de frente para o mar com suas pranchas fincadas na areia, para em seguida domar ondas sob a proteção de Iemanjá. Marmanjos pedalam de peito estufado em suas bicicletas possantes, largando do guidão e relaxando as mãos sobre os joelhos, sentindo a brisa em seu coito. Hordas de famílias se posicionam com as máquinas fotográficas nas portas dos hotéis, aguardando pelo ônibus de turismo que não tarda, estaciona, é quando, de dentro, languidamente, desce a guia poliglota, gesticulando com a sua técnica universal para conduzir turistas. Recém-casados, queimados de sol, passeiam de chinelos e mãos dadas, sorrisos estampados e corações a ponto de explodir, em plena lua de mel, no mar do Ceará. Os ônibus de turismo partem em direção às praias em comboios abarrotados de excursionistas de rostos sorridentes vidrados nas janelas, geladas, dentro, pois fora o sol ferve em raios e sede de acontecimentos.

- Falou, Penélope!

- Ei, André!


No coqueiral, com o porto do Mucuripe como enfeite, turista de mochila nas costas bate o auto-retrato que permanecerá para sempre no seu álbum de viagens; senhora de rasteira e chapéu de palha na cabeça, vestido de renda em cores, requebra ao som do forró emitido na caixa de som da barraca. Carrinhos de mão, caiaques, quiosques, navios atracados. Pescadores jogam cartas enquanto conversam em mesas de madeira. Jangadas, torres eólicas, um moinho de trigo. No box de número treze do mercado de peixes e frutos do mar, fica o Alexandre do Camarão, onde Regivânia responde para o freguês – tem camarão de dez, de treze, de trinta, os maiores, dezessete, só o file, por dezoito, sem cabeça, bem selecionado, lagosta a cinqüenta reais, tudo no quilo! O Mercado de Peixes da Avenida Beira Mar funciona de seis da manhã às oito horas da noite. Lá, você pode comprar porções para que sejam preparadas na hora nas barracas ao lado, desfrutando não apenas de um raro sabor, mas de uma visão sem igual de toda a orla marítima. O mercado fica a poucos metros da Igreja de São Pedro ou dos pescadores, cuja pedra fundamental foi colocada em 1852. Na época, ela era chamada de Capela Nossa Senhora da Saúde do Mucuripe. Perto das nove, times de amigos disputam uma partida de futebol na areia da praia, cozinheiros chegam nas barracas com as compras para o preparo do almoço. Colar de conchas, borboletas, abdominais.

- Cuidado com o carrinho de melancia, rapaz!

Em frente à estátua da índia Iracema, morena faz pose para o aprendiz de fotógrafo bater a foto. Aperta em cima, do lado direito, agora - click, click. O monumento de seis metros de altura, que tem a personagem imortalizada por José de Alencar ao lado do guerreiro Martim Soares Moreno, deixando a praia com o filho e o cão, numa jangada, foi inaugurada em 24 de junho de 1965 pelo exmo. Sr. Presidente da República Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco e restaurada em 2006 durante as comemorações dos 280 anos de Fortaleza. A obra, um dos pontos turísticos mais visitados, é do pernambucano Corbiniano Lins. Bem pertinho fica a Casa do Turista, que funciona diariamente de nove da manhã às nove da noite e recebe os visitantes com um mapa da cidade e ar-condicionado. Ufa, que calorão!

- Onde é que tem água de coco?

Cangas de zebra estendidas na areia, cangas floridas modeladas no corpo, vendedores de cangas exibem a estampa mais vendida – a com a bandeira do Brasil. Turistas comem peixe e salpicam limão na cachaça; crianças dão saltos na areia e constroem castelos que logo serão desfeitos pelas ondas; namorados fazem um chamego nas namoradas, que se derretem feito um sorvete no mormaço; vendedores piratas distribuem falsificações e olhares desconfiados; mirins vendem balas; mascando chicletes, trogloditas divertem-se com a refrescante brisa do oceano. Lá pelas dez, prostitutas de pele enrugada vagueiam na surdina oferecendo a alma e o corpo para estrangeiros de faca e queijo na mão. Engradados de cerveja e refrigerante são repostos por outros cheios, bip, bip, bip, pode passar, darling. Nessa hora na beira mar, a areia queima, ui! E cada sombra achada é desfrutada como um pedaço do paraíso. Viseiras, pochetes, bonés a dez reais, mas pode botar o seu preço, freguês! Garçons esbanjam simpatia, o vendedor, de cesta na mão, grita, olha o camarão, camarão, camarão! Debaixo do guarda-sol, um francês passa protetor solar numa espanhola que se abana com uma revista. Sob um sol arrasador, quatro virgens vendem pitombas. Elas estão descalças. Nayana, a mais velha, é quem lidera o cordão de irmãs. Ellen, a caçula e porta voz, exibe o número de dedos que corresponde aos anos que ainda vai completar, e fala cheia de sorrisos: é quatro. É ela quem negocia com o comprador – Quatro cachos por cinco reais! Realizada a venda, não esquece de agradecer e abençoar – Vá com Deus. Como uma chaminé, sentado no banco de madeira da praça dos stressados, o homem fuma, acendendo um cigarro após o outro. É a ansiedade que o impede de largar o vício, maldita ansiedade, rosna ele, ou bendita, que seja... A praçinha é mantida pelo grupo dos stressados, da associação Amigos da Beira Mar, formada por mais de 600 coopistas. No projeto paisagístico um outdoor, com o lembrete: stressado, exercite-se com alegria. Ao lado do stand onde fica sentada a enfermeira que mede a pressão, cardumes de crianças chupam picolés e bebem água de coco.

- Eu te dou dois pedaços se você me der mais um gole.

Redes armadas ornamentam varandas de prédios de arquitetura futurista; uma profusão de coqueiros se compadece dos passantes refrescando a atmosfera com seu rebolar de palhas. Policiais varrem o calçadão sobre segways, um tipo de patinete elétrico que atinge 20kms por hora e é movido a bateria, que dura por cerca de vinte quilômetros, podendo a recarga ser efetuada sem a necessidade de descarregar completamente. O equipamento foi adquirido em 2008 pelo governo do estado para ser utilizado no patrulhamento 24 horas da Beira Mar. Foram investidos R$285.620 mil na compra de dez segways. Cinqüenta policiais foram treinados para utilizar o veículo sobre duas rodas, que servem de apoio às demais modalidades que já atuam na área – viaturas, motos, cavalos, canil e cabines. O segway pesa 52 quilos e é movido a bateria de lithium, que evita poluir o ar. Atletas de fim de semana revigoram-se com a garapa da cana de açúcar prensada na hora. Duplas de amigos jogam vôlei na quadra de areia; basquetboys acertam bolas dentro da cesta. Pai e filho disputam uma partida de frescobol; de bruços sobre uma toalha, estirada na areia, a mãe assiste à cena, memorável. De pé, sobre um banco de cimento, um senhor grisalho de pernas compridas de avestruz faz uma rápida ligação ao celular:

- Alô! Oi, terminei, agora, dez minutos, até já.

No anfiteatro Flávio Ponte, o mar como pano de fundo aquece corações apaixonados em puro êxtase. Conhecido também como anfiteatro da Volta da Jurema, o espaço a céu aberto foi inaugurado em abril de 1981, recuperado e reinaugurado pela Prefeitura Municipal de Fortaleza em julho de 2006. Antes do almoço, taxistas se reúnem nas esquinas para escutar o show de humor no som do carro. Cachorros tiram um cochilo à sombra de uma castanhola. As portas giratórias dos hotéis engasgam com malas.

FIM DE SEMANA À BEIRA MAR - TARDE













Meio dia e meia. É quando os primeiros permissionários da feirinha de artesanato vão surgindo pela Rua Visconde de Mauá, com as barracas movidas a mão para armar, lotadas de mercadoria que logo mais serão vendidas, todas, uma a uma, se Deus quiser. Pois não freguês, que horas começa? A partir das quatro da tarde, uma multidão de visitantes passa a circular pelos estreitos e coloridos corredores expostos com a arte nativa. Poucos segundos separam o visitador do turista - um comprador em potencial – basta um gesto, uma fala, um olhar, para a compra ser efetuada, claro, depois da pechincha. Turistas de todas as partes pechincham, pechincham especialmente turistas paulistas, pernambucanos, mineiros, cariocas, goianos, baianos, brasilienses, italianos, holandeses, espanhóis, americanos, franceses, ingleses, alemães, a cada passo se ouve um diferente sotaque ou idioma fazendo um bom negócio.

O Pólo de Artesanato da Beira Mar, também chamado de feirinha do Náutico, funciona desde 1979 e foi tombado como patrimônio cultural de Fortaleza por meio da Lei 7.719/95, do dia 12 de setembro de 2008. Com um comprimento total de 200 metros, a feira é realizada na faixa situada entre a Rua Oswaldo cruz e a Avenida Desembargador Moreira. São 633 barracas no total, montadas e desmontadas todos os dias, sendo 17 barracas institucionais, 4 para visitantes e 612 para os permissionários, que além de labirinto, renascença e filé, vendem souvenirs, mantas, redes, roupas, esculturas, bijuterias, artigos de couro e palha, garrafinhas de areia colorida, bebidas, alimentos, entre outros. Tem galinhas de cerâmica pintadas a vinte reais, que Charles faz a quinze. O garoto de onze anos é o arrumador oficial das esculturas de cerâmica na barraca da mãe, eles chegam às quatro horas da tarde e lá pelas nove, nove e meia da noite ele começa a retirar o arranjo das mesas, mas não é trabalho algum, ele gosta, cada dia arruma de um jeito, numa ordem, mas tem dia que está sem inspiração e organiza como da última vez, que ele lembra de cor. E tem artista plástico que constrói um carro em seis meses, todo de rolamento. Não é mesmo, Luiz? É sim, para ter chegado aí nesse carro se passou quase seis meses, depois, termina e fala, ah, dá para fazer isso, ah, dá para fazer aquilo, aí, vai começando, por exemplo, aquele gato é todo de rolamento assim como esse carrinho de fórmula um. Então qual é a idéia? É você ter muitos rolamentos, botar no chão, de todos os tamanhos e dizer: o que é que eu vou fazer com isso aí? Pronto, então você olha, esse gato passou um ano para ser feito, uma coisa besta, já ta feita. Para fazer o design custou, para adaptar o rolamento a ele custou, aqui não tem lápis nem desenho, de nada, aqui você vê o que você pode usar com a peça, a idéia tem que nascer da peça, se você for desenhar você não faz nada, exatamente, quando você olha a peça, aí diz, rapaz olha aqui, lá está uma flor, toda de rolamento. O Dom Quixote é todo feito de rolamento. Não tem um pedaço de ferro, é tudo rolamento. Com imaginação e paciência, Luiz e seu amigo, Bento, criam as esculturas a partir do rolamento de carros e de motocicletas há quase uma década. Olha a rapadura! Uma mariposa de prata apaixonada pendurada na orelha, gostei, vou levar! Castanha de caju, senhor? Qual o menor preço que você faz para eu levar os três? E esse aqui, quanto é? Vou levar esse dois, tá? Vizinhas de comércio disputam o comprador entre a cruz e a espada. Qual é a bolsinha que você quer, heim, meu amor? Agora a turista inglesa me mostra as horas em seu relógio digital que mais parece uma máquina do tempo: 16:00. Thanks! As barracas ganham vida, se misturando a energia contagiante dos turistas e realçando vibrantes no calçadão da Beira Mar. Pardon! What time is it? You’re welcome. Mercy. Hello! Donde vais, carinho? Mas Bá, olha pra onde anda!! Guten Tag! How much? Conbien. Meín Gott, wie hei esß íst!

A pomba branca voa, voa... E pousa sobre o telhado vermelho do Clube Náutico, congestionado de outras pombas brancas e escuras que voam, voam... Jovens descamisados correm, crianças de fralda engatinham e velhos carecas de camiseta regata e tatuagem no braço ciscam pela areia da praia. Salve São Jorge! Picolezeiros em cores berrantes badalam o sino, enquanto empurram os carrinhos de uma ponta a outra do calçadão, e assim permanecem, como pêndulos congelados no tempo. Policiais de segways estacionam para se refrescar com a água gelada do coco, o boné na mão, molhados de suor; varões de bicicletas percorrem a orla com os olhos, cheia de gatinhas de shortinho e training, inspirando e expirando, inspirando e expirando, todos eles. Alemão de mochila nas costas e camiseta listrada de laranja e verde, choca de sunga vermelha, quando passa na frente da madame, de boca aberta, não se sabe se com as listras da camiseta ou com o tamanho da sunga vermelha, ou era roxa? Sob o pôr do sol, de cabelos loiros e pele rosada, um dinamarquês caminha na areia, as sandálias na mão, os pés aparando as ondas, que vem e vão... A jangada risca o mar de ondas quando aponta no horizonte, ela parece inofensiva frente ao transatlântico, que se agita. Goooooll!!!! No campo traçado na areia, futuros craques mergulham em comemoração a mais um gol, de bicicleta. No mar, sobre pranchas, surfistas esperam pela grande onda; em terra, skatistas radicais desenvolvem manobras. O transatlântico some no infinito, a jangada cresce cada vez mais.

- Tá cheio de gatinha!!!

Jovens e belas morenas, surfistas parafinados em trios, brincos, bonés, bermudas arrastando no chão, chinelas havaianas, cabelos molhados, sal, protetor, pulseirinhas. INSPIRANDO E EXPIRANDO... Motocicletas, bip, bip, bip... Esculturas bronzeadas sugam pelo canudo a água do coco enquanto desfilam de fio dental pela areia molhada. Dentro do mar, sereias com seu canto seduzem mancebos que correm para o mergulho... Biquínis floridos, shortinhos rasgados, caixas de isopor sobre o ombro, entupidas de água e gelo. Um festival de pombos no calçadão, água, água, água, vendidas em garrafas a R$1,50. Top bus jardineira, cones, gordinha fazendo jogging – ela vai, cabelos presos, resolução nos olhos, forte aptidão para a luta, a ponto de tornar-se uma borboleta. Casal faz cooper enquanto planeja o destino brilhante da única filha, futura médica. Idosos de tênis rastejam, agentes de turismo vendem pacotes. Na Ceará Rotas Off Road, todos os carros da frota são novos, com ar-condicionado e guia, é só ligar, falar onde está hospedado que o carro passa para pegar. Morro branco, Praia das Fontes e Canoa Quebrada em um dia, por R$50,00. Para Jericoacoara, que fica a 300 km de Fortaleza, o valor é à combinar. Um sonho conquistado, um carro estacionado, alugue-me!

- Passeio de barco, patrão?
- Sim, senhor!

O passeio de escuna da Ceará Saveiros é realizado pela manhã, de dez ao meio dia e à tarde de quatro às seis horas. O flyer garante - o veleiro dos seus sonhos é real! A embarcação dá a volta na Praia Mansa e vai até o Marina Park Hotel, onde tem uma parada de vinte e cinco minutos para o banho, depois retorna. O pagamento é feito a vista e a garantia de um passeio inesquecível. De volta da aventura, grupos de estrangeiros, todos loiros e rosados, falam ao celular, todos ao mesmo tempo, na piscina de cascata, no saguão do hotel. Sentadas em acolchoados sofás, famílias assistem ao programa do Luciano Huck na TV de tela plana LCD fixada na parede do hall de entrada. Na piscina, adolescente de sunga vermelha observa seu reflexo na água de óculos escuros, adolescente de uniforme azul marinho rega a planta sobre a mesa de vidro do mezanino, com um sorriso que não se desfaz; na recepção, os amigos reencontrados combinam o jantar que será servido na Peixada do Meio, às oito; na frente dos hotéis ou de costas para o mar, esposas são fotografadas pelos maridos ou pelos rebentos.


Às quatro da tarde, chegam o Trem da Alegria e o Trem da Fantasia, fazendo a festa da garotada. Cascão, Margarida, Chaves, Chapolim, Magali, Mônica, Piu Piu, Scobby Do, Pateta, Zé Carioca, oi, Hello Kitty! Vovós, pais, mães e crianças, todos batendo palmas e pulando... Assim, assim, vai, vai, comigo, tá na hora, tá na hora, tá na hora de brincar, pula, pula, bole, bole, vem bolando sem parar... O Zé Carioca faz graçinhas, Emilia é a mais sapeca, a princesa do Sherek recebe o título de a mais elegante e feia. O Mickey Mouse e a Minnie posam para a foto. Sorri, filho! Olha o Pica Pau!! ÓÓÓ... E quando surge um boneco gigante que anda e fala na frente de uma criança, as reações são imprevisíveis - algumas crianças recuam, outras beijam, outras tocam suavemente, outras correm para o abraço.

- Vai lá, filho, no meio de tudo eles lá, para tirar foto.

A Minnie é a mais requisitada, com certeza, olha a Minnie!!!! A Minniie!!! A Miiniiie!! É a Minnie, filhinha, fala para ela: oi, Minnie!

A Minnie fala antes:

- Oi, tudo bem?
A criança arregala os olhos e abre a boca, confusa entre fábula e realidade, ela olha para a mãe e para a Minnie, para a mãe e para a Minnie, e sorri encantada, mostrando os dentes de leite.

Enciumado com as perguntas do repórter, o Mickey Mouse se aproxima da Minnie. Mickey, para com isso, ele é jornalista! O Pica Pau assanhado mexe com as menininhas que passam e empacam, cheias de manhas. De repente, a Monica se irrita com o Chico Bento e corre para pegar o sansão para bater, na ausência do Cebolinha, que foi suspenso por ter faltado a um passeio com a turma, deixando de receber o pagamento de vinte e cinco reais pelo dia de trabalho. O Chico Bento é o Danilo, que interpreta o personagem há quatro meses, ele adora, tira muitas fotos, a Minnie se chama Nayara, que é muito enfezada com os rapazes, mas com as crianças é um doce. O Cascão acaba de chegar do ensaio da banda e se junta ao grupo para tirar fotos com os miúdos, flashes, flashes, mais flashes. O passeio no Trem da Fantasia, realizado nas sextas-feiras, sábados e domingos, dura de 20 a 25 minutos e custa R$2,50. Vai até o final da Beira Mar, voltando pela Avenida Abolição, com seis personagens em cada trem, são dois trens em cada empresa - da Alegria e da Fantasia. Segundo o Zé Carioca, cujo nome verdadeiro é José Alan, o primeiro trem parte às cinco e meia, mas depende muito do movimento, às vezes sai antes, das sete horas em diante é lotado, aos domingos não pára, é rodando direto. Eles ficam até às dez e meia da noite. Ele conta que o Pica Pau e o Homem Aranha são os mais procurados, porque passa o desenho na televisão, os meninos gostam de tirar foto. Célio e Adauto chegam atrasados, e correm para a cabine para se transformar respectivamente em Homem Aranha e Pluto. Começam a se acomodar nos bancos os primeiros passageiros ansiosos pela viagem à beira mar no Trem da Fantasia. Enquanto aguardam a hora da partida, mães abraçam filhos que se contorcem de emoção e balançam os pés a todo vapor. Até que... A carruagem vai seguir viagem e o trem da alegria vai pedir passagem, na direção do amor que eu preciso do meu paraíso, doce paisagem, vai nos levar prum mundo de magia onde a fantasia vai entrar na dança e quando o brilho do amor chegar, eu quero é mais brincar, eu quero é ser criança, uni, duni, duni, tê, ô ô ô ô salamê minguê, ô ô ô ô sorvete colorê, sonho encantado onde está você?

- É para frente que a gente olha, minha filha, o pai, explicando para a filha como é que se corre. Olhando para o chão, a inexperiente Gabriela, de apenas sete anos, esbarrava na árvore.

Suaves gazelas saltitam pelo asfalto, acompanhando carros a vinte quilômetros por hora, patinadores de mochilas nas costas ziguezagueiam, skatistas se agarram na boleia do caminhão de carona. Garotão de regata exibe os músculos trabalhados correndo de tênis Nike e corrente prateada no pescoço. Princesa de olhar hipnotizante escuta no i-pode a mais recente trilha sonora da sua vida. Bicicletas piscando, carrinhos de bebê, pés cansados, corredores famintos, o sol, no céu, balões:

- Gi, Marcelo...

- Julio, Paula!

domingo, 5 de abril de 2009

FIM DE SEMANA À BEIRA MAR - NOITE





Anoitece na Beira Mar. Esportistas alongando se abrem feito pererecas. Vendedores ambulantes circulam como percevejos. Gringos curtindo das férias vão no embalo da bike. Rapazes e cachorros, moças e gatinhas. Gritinhos estridentes. Elas vão de táxi. Stop, please! Marchas de turistas seguem dos hotéis para dentro dos restaurantes. Bip, bip, bip. Em mesas de plástico, turistas sexuais pedem uma cerveja com o olhar aceso e o corpo em brasa. Vendedores de rendas penduradas no cabide, vendedores de colares pendurados no braço, uma estrela no céu. Um casal de ingleses senta no banco, eles já viveram bastante, falam sobre o passado, futuro e o presente a beira mar. Ela olha para os pés calejados do marido, tira seus chinelos, massageando os dedos, depois, os calça de volta, sorrindo eles partem de mãos dadas, nesse mesmo banco uma senhora exausta senta e tira o tênis e ajeita a meia e volta a calçar o tênis e a partir exausta. As sirenes piscam vermelhas. Agora no banco onde sentaram antes o casal de ingleses e a corredora exausta senta uma garota faminta, ela tem apenas sete anos e pede comida para quem passa, ao seu lado senta um senhor com um fone de ouvido, que nada ouve e nada vê. Babás com bebês no colo. Uma autêntica baiana vendendo acarajé. Bicicletas-sorveterias, ciclistas-picolezeiros pedalam, pedalam, ei, moço, tem de quê? Olha o algodão doce!! Óculos escuros, pipoqueiros, a escuna iluminada. Na caixa de som da bicicleta que soa como um disco arranhado a propaganda: no Beira Mar Grill você encontra hoje o melhor show de humor, o melhor visual da beira mar, a cervejinha mais gelada e o melhor da culinária cearense, Lailtinho e Paulo Diógenes - a Raimundinha, nove e meia da noite pertinho de você, na Avenida Beira Mar, 3221, ao lado dos trenzinhos.... No ponto do guaraná, sai dois, sai três, sai quatro, com limão, no capricho. O cego inválido pede uma esmolinha para a multidão, que passa sem olhar, por favor uma esmolinha, ô patrão, bote uma esmolinha aqui para o cego! Poodles, souvenirs, buldogues, pastores alemães, triatletas suados, câmeras fotográficas e de filmar a tiracolo, faça uma caridade, doe uma esmola para o pobre ceguinho. Beach Sun receptivo. Carros.

Pelo calçadão da Beira Mar, todo dia passa um senhor de short florido, tênis branco e chapeleta azul, quando não está sem camisa ele está vestindo uma camisa de botões também florida, fala alto e faz gestos abertos para os passantes. Ele fala que é gay, mas aqueles que o conhecem dizem que não é verdade, que é brincadeira, ele trabalhou durante anos na Coelce e, hoje, aposentado, curte a vida a beira mar, seu humor e trajes dependem muito do dia e da lua. As pessoas o conhecem como Sarita. Já Dona Maria Helena visita a Beira Mar somente aos sábados, ela chega às quatro e meia da tarde e fica até as seis, aqui e acolá chega um conhecido para conversar; Iramar, seu motorista, diz que gosta de ir à Beira Mar, pois o local é bom e tem um clima agradável. Marina e Jorge são casados e moraram durante anos na Beira Mar, hoje eles vêm apenas para caminhar; eles acham que podiam ter caminhado mais, podiam ter aproveitado mais, mas quando você passa todo dia parece que cega para o bonito e agora que vem de longe e vê o novo, é diferente.

Além de estátuas vivas, na beira Mar de Fortaleza tem show de humor ao ar livre, sim, senhor, tem malabarista, tem engolidor de fogo, de facas, tem palhaço e tem platéia que se reúne em volta e se diverte até altas horas. Artistas plásticos exilados da fama expõem as obras sobre uma lona no calçadão. Consumidores de várias partes do planeta cruzam a faixa de pedestres sortidos de sacolas e lembranças da maravilhosa viagem ao Ceará. A noite reina no calçadão inteiro iluminado. O mar agora é um imenso quadro negro com a chama de um transatlântico em seu fundo. Piuí, piuí, piuí abacaxi, choque choque choque, choque, por aí, eu quero ter a tua companhia, vem viajar comigo no vagão, tome um lugar no seu assento que o caminho agora é a favor do vento...

Todo ano é feita a lavagem dos pontos críticos do calçadão da Beira Mar, além da colocação das lixeiras de concreto, retirada das papeleiras velhas e despadronizadas e a colocação das papeleiras padronizadas. Na última limpeza, foram gastos 200 litros de sabão, 200 litros de cloro e 70 litros de detergente para a retirada de manchas em toda a extensão de três quilômetros e meio. São dez horas da noite e a maior parte dos turistas já estão a ponto de descobrir o que tem a oferecer a noite de Fortaleza. Para cada luz que se apaga, quatro acendem. Os permissionários já guardam as mercadorias que restaram para o dia seguinte, quando recomeça o ritual de montagem das barracas. Os trens da Alegria e da Fantasia vão embora exaustos. A noite vai chegando ao fim como o dia começou, na temperatura de 24 graus, em mais um fim de semana na Avenida Beira Mar de Fortaleza.

- Bóra!!!